21 de junho de 2011

Fazendo o rancho no Irã

Sabe aqueles mercadinhos e banquinhas de frutas que existiam antigamente aos montes no Brasil? Pois aqui no Irã ainda é a forma mais popular de se fazer compras. Em cada bairro há dezenas deles e todo bom iraniano possui o seu carrinho de compras com rodinhas para fazer as suas comprinhas. Eu comprei o meu para poder carregar melões, melancias e pêssegos pelas ruas e me inserir no cotidiano local.

Carrinho de compras "típico".
Mercadinho na rua de baixo da minha casa.


Claro que há supermercados também. Inclusive, o mais famoso deles de nome Hyperstar (inaugurado em 2009), é a cópia fiel do Carrefour. Dizem que iria abrir como Carrefour, mas depois das sanções, acharam por bem mudar o nome. Mas tudo isso pode ser só intriga da oposição, já que há Hyperstar no Paquistão também. Seja como for, as 2 marcas se parecem demais, bem como o ambiente interno do supermercado.





Hyperstar Iran: setor de frutas.
Foto do Facebook do Hypertar.

Hyperstar Iran: setor da Nestlé.
Foto do Facebook do Hypertar.

Hyperstar Iran: setor de sorvetes!
Foto do Facebook do Hypertar.


Felizmente os mercados estão bem supridos de produtos locais e importados. A maior parte deles de fabricação iraniana também dispõe de explicação em inglês. UFA! Os produtos de limpeza são os menos adaptados para estrangeiros e muitas vezes nem uma única palavra está escrita em um alfabeto decifrável. O jeito é escolher apenas os que têm alguma explicação em inglês, nem que seja uma única frase do tipo "multi purpose cleaner" anexo de uma foto com uma cozinha brilhante. E aí, neste caso, esqueça as inúmeras explicações que constam no verso da embalagem, todas escritas em farsi.

Um elemento óbvio e de fabricação apenas local é sal. Não faria sentido para o Irã importar tal coisa, tendo o mar cáspio e o golfo Pérsico como fronteira. Assim, só encontrei embalagens escritas em farsi e confiei que uma delas seria sal por ter um tamanho e volume "adequado" para o consumível, bem como contava com um desenho de uma "sorridente cebola" fazendo sinal de "ok" na capa (que para o Rafa é um saleiro). Acertei: em casa constatei que era sal mesmo! Na próxima compra já faço um estoque.
Lembrei muito de um amigo nosso, Luciano, que morou no Japão e passou por isso. Contava ele que quando via um ursinho fofinho na embalagem, já sabia que se tratava de amaciante...

Nem preciso dizer que o primeiro rancho da casa demorou algumas horas nesta diversão de conhecer e decifrar embalagens. Alguns produtos são velhos conhecidos (tipo sopa em pacote ou caldo de galinha das famosas marcas), mas só a marca está escrita da forma que você conhece: todas as instruções estão em farsi. Coloque então sua memória para funcionar ou pesquise na internet o modo de preparo. ;-)

Alimentos. Marcas iranianas e internacionais. mas de fabricação local.

Material de limpeza.

Produtos importados.

17 de junho de 2011

Dia 12 de junho não é dia dos namorados no Irã



Fui encontrar com meus amigos iranianos e achei estranho encontrar uma das mulheres toda vestida de preto. Não que preto seja algo pouco usual no Irã, muito pelo contrário, mas há muitas pessoas que evitam esta cor. Preto por aqui não emagrace e sim entristece de tanta gente que usa.
Então, papo vai, papo vem, uma das colegas perguntou o motivo do uso do preto... "A de preto", de forma vaga e um pouco cínica, respondeu-nos que perdeu algo muito importante 2 anos atrás no dia 12 de junho...

Precisei da ajuda dos universitários para matar a charada: 2 anos atrás foi a re-eleição do atual presidente. Então fui advertida para evitar circular na Vanak Square, uma área de fácil alcance de onde moro e onde normalmente as pessoas se reúnem para protestar. Explicaram-me que os protestos são geralmente do tipo sem violência e mudos (ninguém fala nada). E dia 12 de junho seria muito provável de acontecer algo. Claro que já sabendo disso o policiamento também aumentou na data e pelo que eu saiba os poucos protestos que se iniciaram foram rapidamente dispersados pela guarda.

Aqui o movimento oposicionista é chamado "movimento verde". Já sabendo disso, evitei a compra de roupas com esta cor para trazer para o Irã...
Confesso que deu uma curiosidade de ir lá na Vanak no dia 12 e ver se iria acontecer alguma coisa, mas achei prudente esquecer e comemorar a data pelo seu significado brasileiro.

No encontro seguinte todos se perguntavam se "tinham ido fazer compras" no dia 12... A Vanak é também um centro comercial, o que justifica a passagem por lá para umas "comprinhas"...


Para saber mais:
http://www.insideiran.org/media-analysis/green-movement-holds-silent-protest-urges-more-demonstrations/

http://wagingnonviolence.org/2009/06/dont-give-up-on-nonviolence-in-iran/

PS: cabe destacar que na noite de véspera do dia 12, também se ouviam gritos das janelas dos apartamentos com frases do tipo "Deus é grande" (em farsi, óbvio!) e outras do gênero. Naturalmente os manifestantes gritam ocultos na escuridão. Esclareço ainda que esta particular frase foi lema da revolução de 1979 e tem sido usada nos dias atuais.

11 de junho de 2011

Darband - gastronomia e trilhas a 2 mil metros de altura

Darband fica numa região no norte de Teerã, ideal para um dia de lazer e felizmente pertinho de minha casa.
Chega-se lá por uma única estrada de mesmo nome, que vira uma ruela, que então vira uma escadaria para finalmente tornar-se uma trilha nas montanhas. Este trajeto é feito ao lado de um rio que depois se torna uma bela cachoeira subindo a trilha. A grande peculiaridade de Darband são as dezenas, ou talvez centenas de restaurantes e casas de chás que ficam encravados na montanha e às vezes até mesmo dentro do rio. Alguns restaurantes colocam tablados de madeira com tapetes por cima do rio, criando um clima "refrigerado" para seus clientes, especialmente agradável na estação de verão. Outros pegam mangueiras e borrifam água no entorno de suas casas de chás criando uma nuvem úmida. Tapetes persas e luminárias não faltam no local.

Início da trilha
Tablados de madeira com tapetes persas para os clientes dos restaurantes sentarem e desfrutarem.

Ontem saímos de casa após o café da manhã reforçado para fazer a trilha. Conosco apenas um boné, celular e dinheiro no bolso. Nem levamos mochila com mantimentos, afinal por toda a trilha, mesmo nos lugares mais altos, é possível encontrar alguém vendendo água, pepsi e cerveja sem álcool. O público de Darband é heterogêneo: desde moças com saltos altíssimos e super maquiadas - prontas para a paquera -, a mochileiros muito bem paramentados com seus bastões de trekking e roupas tecnológicas.

Eu fui de calça de trilha, camiseta dry-fit manga comprida, e tênis salomon. Como "acabamento", para adaptar-me à moda islâmica obrigatória, coloquei por cima uma camisa comprida tapando as nádegas e um lenço na cabeça. O lenço dá um grande desconforto térmico ao fazer esportes, mas a medida que avançávamos na trilha de Darband e nos afastávamos da "muvuca" de pessoas nos restaurantes pude perceber que as mulheres desfilavam mais livres de suas obrigações de vestuário: os lenços foram substituídos por bonés com proteções no pescoço ou mesmo por um simples boné com a aba virada para trás. Vez ou outra encontrava uma moça sem nada na cabeça descansando em um canto com amigos. Em outras ocasiões mais raras via mulheres de chador (pretinho básico completo da cabeça aos pés) e tamancos/ sandálias nada práticas para a trilha pedregosa. E eu, com o meu tênis poderoso, perguntava-me como estas mulheres conseguiam se equilibrar pelo caminho. Vale lembrar que um chador não tem botão ou zíper e para mantê-lo fechado deve-se usar as mãos por dentro do tecido. (para saber mais sobre CHADOR, veja as postagens de 2010 com o vídeo de como vestir um chador e a de conceitos da moda islâmica, ou ainda na wikipédia).


Já com a camisa amarrada na cintura e sem véu.

Faltando pouco para o ápice da trilha, dei uma "amarelada" e não quis prosseguir já que minhas pernas não estavam respondendo adequadamente e o fato de ter que continuar numa espécie de trilha/ escalada com um precipício ao lado não me animou muito. Vale destacar que nesta altura da trilha passamos por um "alojamento resgate" com um grande cartaz exibindo fotos de pessoas horrivelmente acidentadas na trilha. Nada estimulante... O Rafael, que possui falta de genes relativos à racionalidade vinculados à auto-preservação do seu "eu" [o que esperar afinal de um EX-(paraquedista, alpinista, esqueitista, surfista, etc, etc)?!], não hesitou em prosseguir enquanto eu aguardava em um local mais seguro ao lado de uma banquinha improvisada de refrescos. Pena que, sem ter considerado este fato, o dinheiro ficou no bolso da calça do Rafael... :-P
OK então: uma hora de espera sem nada para beber. Pelo menos ganhei uma bala de um dos trilheiros que por ali passou (achei que já estava grandinha para aceitar balas de estranhos).

Advertência quanto à acidentes nas montanhas. Sinistro!



Mais aliviada pela decisão tomada: daqui eu não passo!


Ponto de desistência/ início da "escalaminhada".

Vista da etapa final da trilha. Desisti na metade do que aparece nesta foto.

Avisos em farsi. Só entendi a altitude e as caveiras.

Alojamento no alto da montanha (foto tirada pelo Rafael). Considerando agora que os caras levaram todos estes tijolos até lá, devo reavaliar o grau de risco da trilha para uma próxima vez.


No total, são mais de 1000 metros de altitude entre o início da trilha e o ápice de um dos picos da cadeia de montanhas. No alto há um pequeno restaurante e alojamento, e de lá é possível prosseguir por outra trilha para alcançar o teleférico de Tochal (onde há uma estação de esqui). Acho que em uma próxima vez, mais preparada psicologicamente e não tendo que retornar pela mesma trilha, prosseguiremos por esta rota.

A descida da trilha requer, se os têm, bastões de trekking para poupar os joelhos. Além das pedras, alguns trechos estão molhados e são bastante escorregadios. No entanto, a certeza de uma parada em um dos agradáveis restaurantes para desfrutar da gastronomia local ajuda na motivação. Prato principal: naturalmente um kebab com arroz. Incrementamos a opção pedindo uma "badendjam" (beringela) refogada com lentilha/ cebola/ etc e petiscos de azeitonas com pasta de castanhas. Adoro!

Badandjam com iogurte por cima (para comer com pão ou arroz).

Arroz, pão (em baixo do prato de arroz), kebab, folhas de um tipo de manjericão mentolado, salada e azeitonas com pasta de castanhas.


É praxe no Irã tomar chá. Quando você o pede, é certo que virá com tâmaras e um pirulito de açúcar. Este normalmente é colocado na xícara para adocicar o chá ou mesmo para amolecê-lo e ser então mordiscado. Fica a critério do freguês. Deixá-lo de lado também é permitido. ;-)

Chá, pirulitos e tâmaras.

Rafael pediu um narguilé no final "só para relaxar" da trilha.

23 de maio de 2011

Morando no Irã (Pérsia) - primeiros aprendizados

As mudanças e viagens em 2011 estão acontecendo com uma intensidade que não estou dando conta do blog. Foram inúmeras as coordenadas em diversos continentes em pouquíssimos meses...
Bandeira da República Islâmica do Irã
Larguei meu emprego, empacotei todas as minhas coisas do Brasil e despachei via contêiner marítimo, passei 40 dias na África (Quênia, Uganda, Ruanda e Tanzânia), voltei ao Brasil para 1 semana de repouso, depois passei mais 2 semanas nos EUA e agora aqui estou completando quase 1 mês de residência no Irã (ainda aguardando o cointêiner que não chegou).
Eu nem consegui finalizar meus relatos da África (que pretendo fazê-lo num futuro próximo), mas preciso iniciar os relatos de minhas primeiras impressões aqui no Irã antes que as novidades se tornem banais no dia a dia por aqui e eu nem note mais os contrastes.

Selecionei abaixo algumas curiosidades do país de âmbito mais geral para o dia a dia.


FUSO HORÁRIO

A primeira coisa que tive que acostumar por aqui foi com o fuso horário de + 7:30 horas com o Brasil. Muitos acham estranho esta divisão de meia hora no fuso, mas acreditem, existem países ainda mais estranhos com fusos "quebrados" em 15 minutos (Exemplo: Nepal e algumas ilhas da Oceania).
Uma quebra de meia hora é até bem comum.

Para ver a lista completa de fusos horário mundiais clique aqui.

CALENDÁRIO

Um fato estranho no Irã são as datas. Aqui estamos no ano de 1390. E hoje, por exemplo, não é dia 23/05 e sim dia 02/03!!
Explico:
O ano 0 (zero) não é considerado pelo nascimento de Cristo (que para eles foi um cara legal, mas "apenas" um profeta) e sim pela fuga de Maomé de Meca para Medina (este sim, o cara, digno do ano zero). Então daí surge o início da confusão das datas. Mas não é só isso: o ano não começa no nosso 1 de janeiro! Este ano começou na data de 21 de março (varia entre 20 ou 21 de março, dependendo de quando começa a primavera no hemisfério norte). A única coisa igual ao nosso calendário é que eles possuem 12 meses por ano! UFA!
Parece sem importância tudo isso? Pode ser para quem está de passagem pelo país, mas quando você precisa saber quando começa uma determinada feira/ evento ou qual a validade dos produtos que você está comprando no supermercado, aí você dá outro valor ao assunto.

DIAS DA SEMANA

Os persas tem 7 dias na semana, mas folgam nas quintas e sextas-feiras ao invés do nosso sábado e domingo. A embaixada brasileira para fazer um "meio termo" entre o praticado no Brasil e o praticado no Irã, adota as folgas dos funcionários na sexta e sábado. Assim consegue ter 4 dias úteis para ambos os países e não somente 3 se adotasse um dos 2 sistemas.


O ALFABETO PERSA (números)

Depois de todas estas explicações, que tal deparar-se com a validade dos produtos escritas assim:

۱۳۹۰/۰۳/۰۲
Esta data nada mais é que: 1390/03/02, ou seja, ano 1390, mês 03 e dia 02. Ou no calendário gregoriano (cristão): 23/05/2011. Eu comprei uma agenda com as 2 datas para ajudar no aprendizado.

Para um turista, é importante aprender pelo menos os números, já que muitos preços estão escritos também em persa.
Aqui vai uma tabelinha rápida de conversão:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 0
۱ ۲ ۳ ۴ ۵ ۶ ۷ ۸ ۹ ۰

Alguns números eu decorei com macetes. Por exemplo: o 2 e o 3 você os "enxerga" no nosso alfabeto inclinando levemente a cabeça na direção do ombro direito. Viu? ;-)
Os números 1, 9 e 0 são quase equivalentes aos nossos. O 7 é meu número da sorte e parece um "V" de vitória. O 8 é o contrário. O número 5 é um coração de cabeça para baixo. E assim por diante.

Uma coisa "fácil" nos números é que eles são escritos da esquerda para a direita como em nosso alfabeto. Mas se formos entrar nas letras (palavras e frases), aí vamos complicar um pouquinho mais já que tudo é escrito da direita para a esquerda. A coisa mais estranha é ver nas livrarias os livros expostos como se estivessem virados, com o verso do livro para cima. Mas isso é assunto para uma outra postagem...


EXEMPLOS PRÁTICOS NO USO DE NÚMEROS E DATAS:

Tomemos um exemplo simples de 3 produtos abaixo (leite, suco e biscoito).

Biscoito, suco e leite: boa parte dos produtos possui um dos lados da embalagem escrito em inglês.

Ao avaliar a data de validade, pode-se tê-la escrita de várias formas.

a) Escrito no calendário farsi (e com letras em farsi) e no calendário gregoriano:

Suco com data de validade escrito nos 2 calendários (persa e gregoriano).
b) Escrito no calendário persa, mas com numerais ocidentais.

Leite com data de validade no calendário Persa. Aqui também é possível ver o preço: 10000 RIALS. Corte 4 zeros e você sabe o preço aproximado em dólares. Neste caso, o litro de leite está custando aproximadamente 1 dólar.

c) Escrito somente no calendário persa e com letras em farsi:

Biscoito com ingredientes escritos em inglês, mas a data de validade escrita em farsi.

27 de março de 2011

Qual é o objetivo do viajante?

"O objetivo do viajante é seguir rumo ao desconhecido. A melhor viagem é um salto no escuro. Se o destino fosse conhecido e hospitaleiro, qual seria o sentido de ir até lá?"

Paul Theroux em seu livro "O Safari da Estrela Negra - Uma Viagem Através da África".

26 de março de 2011

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 8 de 8 (18/02/2011)

De Maralal a Nairobi a estrada melhorou um pouco, mas eu estava sentindo todos os ossos das minhas costas devido ao dia anterior. Pedi inclusive para sentar na frente, pois eu realmente estava com dores.

Também neste dia não havia muita programação além da estrada. O jeito era sentar no carro por horas e horas. No caminho nos despedimos e deixamos os 2 militares em suas bases.
Uma única parada foi bastante agradável, onde visitamos a cachoeira Thomson e compramos alguns sanduiches para ir comendo no trajeto. O grupo estava com pressa pois alguns tinham que pegar um trem no fim do dia em Nairobi.


Visão geral da expedição:

Apesar de nos meus relatos dos 8 dias de expedição ao lago Turkana eu ter detalhado as dificuldades que passamos e até a falta de sorte em alguns pontos, é importante que eu deixe registrado o quanto foi impressionante e enriquecedor a experiência. Ver e sentir situações tão adversas e ter uma real impressão do que é a vida no interior da África abre a mente para muitos questionamentos sobre nossa existência e a de pessoas tão diferentes de nós.
Durante esta mesma expedição, li um livro que questionava a ajuda humanitária na África de maneira muito pragmática e confesso que no momento não tenho uma resposta sobre se deveríamos ou não intervir naquelas vidas. Vi muitas pessoas "cobrando" que déssemos ajuda financeira e alimentar. Vi que apenas estrangeiros brancos (ou na sua maior parte) trabalham nas ONGs. A associação de que homem branco dá comida é imediata e natural para estas pessoas. Não há incentivo ao desenvolvimento e há décadas estamos dando tudo a eles. Por outro lado, muitas vezes a própria natureza os massacra e milhares de pessoas voltam a morrer de fome se não os ajudarmos.
Mas como ajudar?
Há relatos de várias ajudas fracassadas, como o caso de uma ONG alemã que construiu centenas de casas lindas de 2 andares para uma tribo, mas o resultado foi um fiasco: não havia local para colocar as cabras dentro de casa e as pessoas voltaram às suas choupanas! O homem "civilizado" vai até a África, não consulta ninguém e espera que suas tecnologias e costumes sejam os mesmos dos locais. Mas não são nem de perto!
Outros relatam de casos de bombas de água que são instaladas para ajudar uma tribo, funcionando muito bem no princípio, fazendo as pessoas pararem de manter possos artesianos e a ir buscar água há quilômetros de distância. Um belo dia a bomba estraga e não há quem a conserte. De uma hora para a outra, uma tecnologia que deveria ajudar, faz toda uma população começar a passar sede pois a tribo passa a esperar pela ajuda do homem branco e o posso antigo já está seco.

Vi que a intervenção em uma cultura milenar de subsistência pode ser um grande erro. Pode ser...
Pode também ser a salvação em grandes períodos de seca. Pode ser...

Eu não sei.





Trajeto percorrido nos 8 dias de expedição ao Lago Turkana:

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 7 de 8 (17/02/2011)

Arrumar as choupanas para ir embora. Agora era o momento de iniciar o retorno depois de uma última foto com todo o grupo:


Da esquerda para a direita: Momo/ Gabriel (o cozinheiro), Stephen (nosso guia), Rafael, eu, Coleman, Christine, Jessica, Angela (a Barbie que relatei nos dias anteriores) e Linn.

O penúltimo dia da expedição foi massacrante. Era o retorno para Nairobi sem nenhum grande atrativo pelo caminho. O pessoal da área de rally de carro deveria conhecer a estrada para realizar um prova por lá. Passamos mais de 7 horas chacoalhando dentro do carro. O corpo doía. Coleman, o Canadense de 65 anos, passou mal e sentou mais na frente. Rafael e eu, bobeamos e acabamos sentando na traseira do carro onde a coisa era pior.
Foi um dia "perdido" de estrada entre as cidades de Loyangalani (Lago Turkana) e Maralal.

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 6 de 8 (16/02/2011)

Eram por volta das 3 da manhã quando finalmente um ventinho fresco começou a entrar pela porta da choupana. Pude dormir um pouco com a brisa, mas voltei a acordar com relâmpagos. Seria chuva mesmo que estava por vir? A última tinha acontecido em abril de 2010, quase um ano atrás.
De fato, pouco tempo depois, começou a chover, e muito forte. Em poucos minutos começaram a aparecer as goteiras dentro de nossa choupana, em cima das camas e de nossas roupas e mochilas. Levantamos rapidamente e começamos a ensacar tudo. A solução otimizada para reduzir a área que seria molhada foi empilhar todas as mochilas, deixando a do Rafael, que tinha capa de chuva, por cima. Vesti meu corta vento e colocamos os colchões em pé para não pegar tantas goteiras. O vento soprava forte e tivemos que colocar um galão de água como peso para segurar a porta de esteira. Eu ria muito daquela situação e falava: "...e ainda estamos pagando para estar aqui". hahaha
Quando a chuva reduziu, colocamos os colchões de volta e tentamos dormir. As goteiras já não eram mais tantas e eu estava cansada.

O dia amanheceu com chuva leve. Ir ao banheiro sem teto se tornou uma aventura ainda maior. Algumas choupanas que ainda estavam em construção tinham se desfeito parcialmente. Não tinha onde sentar no café da manhã, pois tudo estava molhado.

Fomos visitar a vila El-Molo ainda garoando. No caminho, dezenas de rios tinham se formado onde antes era pura areia e pedras. Mas as pessoas estavam felizes! Vi uma mulher com os seios a mostra, vestindo apenas uma saia, dançando na beira de um rio que tinha se formado. Parecia ser uma celebração.

Ao chegarmos na vila, muitas crianças vieram ao nosso encontro. Restos de latas de comida de ajuda humanitária dos Estados Unidos estavam por toda parte.

Chegada à vila El-Molo.

Vila El-Molo.
Casa de palha com porta feita das latas de alimentos recebidas dos EUA.
Crianças com roupas doadas.O pequenino ao meu lado acompanhou-me durante toda a visita.
É difícil ver pessoalmente a condição destas crianças. Especialmente porque parece que pedem para ser levadas contigo. Um dos menores meninos que estava na vila, logo pegou na minha mão com tanta firmeza que só me largou quando eu tive que ir embora. Vendo-o caminhar na chuva com seus pezinhos descalços naquelas pedras, era de cortar o coração, mas apesar disso ele me olhava com aquele jeito inocente das crianças e sorria.

O pequenino ficou comigo durante toda a visita.

Achei linda esta foto!
Durante a visita vimos peixes abertos postos a secar, partoreiros cuidando de suas cabras, mulheres cuidando de suas crianças e vendendo artesanato. Felizmente hoje em dia, a ajuda humanitária trás água potável para a vila. Em um passado recente, todos bebiam a água alcalina do lago, o que causava altas perdas de cálcio na população, claramente perceptível pelos dentes de cor marrom e pernas mais curtas dos adultos.

Mulheres vendendo colares com missangas coloridas.

Objeto tradicional dos pastoreiros: banquinho para sentar e colocar a cabeça para dormir. ("melhor do que se encostar nas pedras" - justificavam)

Pastoreiro com suas cabras, cajado e "banquinho" de sentar e deitar.

No fim da tarde fizemos um passeio de barco que nem todo mundo da turma encarou. Não foi nada demais, e nem vimos os famosos crocodilos de perto.


Fim de tarde no lago Turkana

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 5 de 8 (15/02/2011)

Eu queria sair daquele acampamento quente. Desarmei a barraca com pressa pois a cada minuto o sol começava a ser tornar mais presente.
No caminho deste quinto dia de expedição, paramos numa vila para dar uma volta a pé e comprar o que mais anunciavam nos mercadinhos em letras grandes e coloridas: COLD DRINKS. Para nossa decepção, as geladeiras estavam desligadas para economizar a energia que os painéis fotovoltaicos proviam para as baterias. Os refrigerantes estavam poucos graus a menos que a temperatura ambiente, mas o suficiente para prover uma sensação refrescante. Era um alívio para o grande calor que fazia e uma recompensa pelo desconforto das últimas 24 horas. Eu nem me importava de me entupir com refrigerantes que não eram diet.
Ao redor do mercado, algumas dezenas de homens sem nada para fazer, sentados à pequena sombra da casa. Conversamos com um deles que tinha um inglês razoável (dizia que era guia) e tiramos fotos. Quando mostrei as fotos a eles, começaram a rir muito e a conversar entre eles sem que eu pudesse entender. Depois me esclareceram que estavam rindo da minha cor, pois, segundo eles, eu era demasiadamente branca.
O mesmo rapaz com o inglês bom, pediu ao Rafael que desse o boné que estava usando de presente a ele. Rafael teve que explicar que como era branco, precisava do acessório muito mais do que ele. Mas prometeu que em um futuro retorno àquela turística vila, daria o boné a ele. Novas risadas...


Deserto de areia, de pedras e com palmeiras.
  
 
Parada na vila para comprar bebidas "geladas".


Conversando com os locais, que comentaram e riram: "você é muito branca".

Novamente pegamos a "estrada" e atravessamos novos cenários de deserto. Deserto de areia, deserto de pedras, deserto com palmeiras,... Era uma nova região sem a presença humana. Porém apenas aparentemente não havia pessoas.
A cada parada que fazíamos, fosse para bater fotos, fosse para ir ao "matinho"/ banheiro, em poucos minutos apareciam pessoas caminhando em nossa direção. Pastoreiros e crianças surgiam como que por mágica, para nos observar ou pedir comida e água.
Este tipo de "visita" inesperada aconteceu com maior intensidade na nossa parada para almoço, quando permanecemos mais tempo no mesmo lugar. Paramos com o carro embaixo de uma linda árvore que nos provia uma sombra agradável. O cozinheiro logo pôs-se a trabalhar e ficamos aguardando nossa refeição. Ao redor, não havia qualquer indício da existência de pessoas na região.
Enquanto almoçávamos, algumas pessoas da tribo Turkana foram aparecendo no horizonte. Vinham caminhando ao nosso encontro e paravam acocorados a poucos metros de nós. De alguma forma eles nos enxergavam de longe.



Nossa parada para almoço. Momentos antes de recebermos as visitas.

Nosso guia não era muito receptivo e não queria dar nossos restos de comida a eles. Dizia: "Você dá comida para 2 e outros 4 virão." Mas jogar a comida fora é que não fazia sentido.
Ele tinha um pouco de razão: demos a comida aos poucos que ali estavam e logo surgiram outras pessoas vindo do horizonte. Mulheres com bebês nas costas, crianças quase peladas e idosos. Como será que nos viam de tão longe? Pediam mais comida.
Também pediram com insistência a nossa água. Demos uma garrafa e nos pediram mais. Pediam até nossas garrafas vazias, provavelmente para terem recipientes para estocar água depois. Como nossa próxima parada era em um acampamento na beira do lago Turkana, demos a água que estava nos galões para lavar a louça. Não era água que beberíamos.
Enquanto não íamos embora, eles continuavam a pedir mais coisas. Não adiantava dizer que também precisávamos de água para nossa viagem.
Bati algumas fotos deste momento, mas não muitas, pois eles não gostam e alguns ficam brabos (acreditam que estamos roubando o espírito deles).

Três pessoas da tribo Turkana e um de nossos seguranças.


Eu fazendo contato. Contrastes...
Repassando nossa sobra de água.

Do carro, nos despedimos das mulheres e das desnudas crianças.

 ACAMPAMENTO NO LAGO TURKANA

Nossa acampamento no lago Turkana era coisa de cinema. Choupanas típicas de palha, cada uma com 2 camas de tábuas estreitas e colchão, construídas a beira do lago cor turquesa. Lindo. A porta era apenas uma esteira, presa no alto da entrada e que balançava com o vento.
Dentro a temperatura era mais agradável que do lado de fora: os caseiros do acampamento tinham jogado água no chão para refrescar. A evaporação desta água dava uma sensação agradável de frescor.


Lago Turkana. Ao fundo é uma das ilhas, pois a margem do outro lado não é possível de ver.

Nosso acampamento. A frente era o refeitório, e ao fundo as choupanas onde dormíamos.
Nossa choupana por 2 noites.

Os banheiros eram feitos com paredes de palha, sem teto. Da mesma forma eram feitos os chuveiros, providos com água do próprio lago (para horror das estrangeiras europeias que argumentavam que o lago tinha parasitas). Como estes ambientes não tinham porta, apenas um anteparo, era preciso colocar algo pendurado na frente para sinalizar a presença de alguém, ou então fazer algum barulho de advertência.

Caminhamos, eu e o Rafa, na beira do lago. Vimos pescadores puxando suas redes cheias de peixes. Suas embarcações eram troncos amarrados, tipo jangadas, e eles enfrentavam o lago cheio de crocodilos com muita tranquilidade.
Nós fomos advertidos a não entrar no lago, pois os crocodilos eram perigosos. No entanto, as crianças da região banhavam-se e brincavam na água: os locais conseguiam avistar os crocodilos a grandes distâncias.


Jangada e rede de pesca no lago Turkana.


Durante nosso passeio a beira do lago, vimos 2 caminhonetes paradas com turistas. Fomos cumprimentá-los e formos muito bem recebidos. Ofereceram a nós cerveja super gelada (eles tinham a caminhonete cheia de isopores com gelo, abastecidas com cerveja, vinho e refrigerantes). Era a bebida mais gelada que tínhamos tomado nos últimos dias e aceitamos com muita alegria. Delícia.

O fim de tarde estava espetacular, apesar do calor. Abrimos um vinho para brindar o alcance de nosso objetivo: chegar ao lago Turkana. Uma região tão remota que até os quenianos da capital nos questionavam para que fazer tamanha empreitada. Mas o lugar realmente era incrível e o esforço tinha valido a pena. Tínhamos lua cheia e vi uma enorme estrela cadente caindo no lago.

Ao irmos nos deitar, percebi que seria outra noite de sacrifício com o calor. Não tínhamos vento e eu suava muito na choupana. Estava muito abafado dentro, o contrário da sensação durante o dia. Tentei meditar para ver se eu esquecia aquele calor e deixava de sentir meu corpo, mas a técnica não é meu forte.
Achei que eu ia passar outra noite em claro sofrendo com o calor, mas eu estava enganada, seriamente enganada...
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