23 de março de 2011

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 4 de 8 (14/02/2011)

Na manhã seguinte após comprarmos mais alguns galões de água prosseguimos para a parte mais desértica do trajeto: Chalbi Desert. Este deserto possui uma areia tão fina que quando chove é impossível transpor a área de carro devido ao mar de lama que fica.
A paisagem era linda e ao mesmo tempo triste.





Mar de areia...
 Quando fazíamos paradas para "esticar as pernas" ou tirar fotos, rapidamente a temperatura se fazia perceptível na faixa de 40 graus. Dentro do carro, apesar de não termos ar condicionado, ao menos tínhamos o vento para refrescar.
Ao chegarmos ao lugar de nosso novo acampamento, retiramos todos os colchonetes e barracas para secar da chuva do dia anterior. Em pouco tempo tudo estava perfeitamente seco.
Todos começamos a suar e a sede não passava, pois nossa água também estava a 40 graus. Era horrível tomar aquela "água de fazer chá". A água que tínhamos nos chuveiros era bombeada por um moinho de vento e estava quente também. Eu resolvi deixar para tomar o meu banho no final do dia, na esperança de que estaria mais fresco.

A comunidade que existia na região era muito pobre e vivia em casas feitas de galhos, barro, palha, latas e plástico. Algumas poucas eram de alvenaria. Uma igreja e uma mesquita disputavam os fiéis: às 5 da manhã ocorria a chamada para reza dos muçulmanos no alto falante e 30 minutos depois era a vez da convocação católica através dos sinos da igreja.


Casas...
 
Vila Gabra


Acampamos em baixo das árvores da esquerda. Moinho de vento ao fundo. Instalações cedidas pela igreja.

 O BANHO...

Quando finalmente o sol se pôs, o calor ainda era grande. Preparei minhas coisas para tomar um bom banho (todos já tinham feito o mesmo) e me dirigi às "casinhas" de banho.
Aprendi então que na África, se você deseja algo, deve fazê-lo no momento presente em que este está disponível. A água tinha acabado. Duas gotas pingaram do chuveiro para debochar de mim. Irritada com o calor, o suor e a poeira que tomava conta de mim, voltei para o acampamento almadiçoando-me por não ter tomado meu banho quando todos o faziam. E para minha enorme falta de sorte, não havia um fiapo de vento para o tal moinho bombear água.
Resignada, aceitei um balde de água que o cozinheiro tinha separado para lavar os pratos mais tarde e fui tomar meu "banho de caneco" que até que ajudou para melhorar meu humor.

Na barraca, TENTEI dormir, mas o calor era tanto que parecia que eu sufocava com o ar quente.
Sonhei com refrigerantes gelados e sorvetes.

19 de março de 2011

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 3 de 8 (13/02/2011)

Acordar cedo nos safaris é rotina. E o terceiro dia da expedição era para "levantar acampamento", ou seja, ir para outros destinos menos confortáveis (onde teríamos que armar as próprias barracas e possivelmente teríamos piores banheiros. O café da manhã foi servido às 06:30 horas (ovos, salsichas, torradas e manga) e já às 07:30 horas estávamos na estrada.
Hoje foi o dia do Rafael passar mal. Eu ainda estava invicta, por puro milagre, já que meu organismo não é dos mais resistentes. Não que a comida seja complicada por aqui, mas estar num ritmo de constante mudança e calor é determinante para um mal estar vez ou outra.

Neste dia paramos em um posto militar e 2 soldados embarcaram em nosso carro. Eles seriam nossos seguranças na "estrada dos bandoleiros" (título de um dos capítulos do livro: "Safari da Estrela Negra" ou "Dark Star Safari" de Paul Theroux que retrata a mesma região que trafegamos).


Militares embarcando para nos acompanhar.

Prosseguimos por uma região totalmente desértica, com raros carros 4x4 trafegando. Ao longe, a areia e o sol eram tão intensos, que o reflexo parecia apontar para um grande mar ao fundo. Puro efeito óptico. Não havia água em lugar algum. Por quilômetros e quilômetros apenas areia plana. Um "trambolho" era visto no horizonte: nosso motorista explicou que eram chineses a procura de petróleo. Eles estão por todos os lados da África, construindo estradas, implantando usinas eólicas e procurando minérios e petróleo.

Deste grande deserto plano estávamos para alcançar Marsabit. Inacreditável: uma montanha com uma floresta densa no meio de um eco-sistema extremamente árido. Em questão de poucos minutos, a paisagem transformou-se totalmente e estávamos no meio de uma linda floresta, muito úmida, subindo uma montanha. A transformação foi além: uma forte chuva começou a despencar, tão forte que logo o pó se transformou em lama, nosso carro começou a derrapar. Não tinha mais jeito! Aquela estrada virou um tobogã de lama e estávamos "presos" sem poder prosseguir. A chuva era implacável. Parecia que despejava baldes de água e não gotas. O motorista bem que tentou prosseguir, mas o carro atolava. Então tentou dar a volta e fomos obrigados a descer do carro no meio da tempestade com grande rapidez. Foi a única solução! Os 2 militares e o cozinheiro pegaram pás e começaram a cavar e a jogar pedras e galhos em frente aos pneus. Enquanto isso, nós tentávamos em vão nos abrigar em baixo de árvores.
Foi então que nos perguntamos: onde está a Barbie? Barbie era a turista alemã que já tinha manifestado suas frescuras no decorrer da viagem, usando salto alto nos safaris, criando transtornos para ficar hospedada em lodges e não em campings e carregando uma enorme mala de rodinhas e 5 mochilas extras.
Então, após a fatídica pergunta, surge Barbie ainda de dentro do carro, com sua capa de chuva cor de rosa e os saltos altos envoltos por sacos plásticos. Bizarro!
Ficamos nesta situação, na chuva e lama, por um bom tempo. Totalmente molhados, caminhávamos no barro molhado ao lado do carro que insistia em derrapar de um lado para o outro, muitas vezes desgovernado. Isso é que é safari de verdade dizíamos! :-)
Mas e nossas barracas e colchões? Com certeza estariam molhados, pois ninguém esperava por tamanha chuva e tudo estava no teto do carro ao alcance da água. A noite não seria das mais agradáveis...
Quando finalmente o carro se desvencilhou da lama e o motorista assumiu novamente o controle, embarcamos totalmente molhados e sujos de lama.


Após a chuva e o caos para retirar o carro do atoleiro, todos se preparam para prosseguir.
A esquerda, Rafael ajuda Barbie a retirar sua capa de chuva rosa, mas seus saltos altos a desequilibram.


Totalmente encharcada, aproveitei para tirar um foto da cratera da montanha antes de voltarmos ao deserto.

A expedição pela floresta de Marsabit estava cancelada.
Retornamos ao deserto e percorremos um caminho maior para chegar ao destino do próximo acampamento. No entanto não tínhamos o interesse de dormir em colchonetes molhados e o Rafael já estava mais doente com tudo isso que passamos.
Avisamos ao motorista que pagaríamos pela hospedagem extra caso conseguíssemos um local para dormir, tipo uma pousada ou hotel. Infelizmente na pequena cidade só tinha espelunca e escolhemos a menos ruim, mas com camas secas. Na entrada do alojamento muçulmano que escolhemos, uma grande advertência aos menos avisados: "No alcoohol. No prostitution.".
O banheiro, coletivo, era repugnante e dava vontade de vomitar. E o chuveiro era um fiapo de água, provavelmente proposital devido às dificuldades de se conseguir água na região. No entanto o quarto era adequado ao que procurávamos: nenhuma luxo, mas camas secas! :-)

Pátio interno do moquifo. As janelas eram para o pátio.

Quarto oferecido na pousada.


Na cidade de Marsabit. Da esquerda para a direita: Linn (da Noruega), eu, Christine (da Suíça) e Jessica (da Holanda).

Outra vista da cidade. Da esquerda para a direita: Rafael, Coleman (Canadá) e Linn (Noruega).

12 de março de 2011

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 2 de 8 (12/02/2011)

Após uma noite inteira ouvindo leões, elefantes e javalis rondando nosso acampamento, começamos nosso dia bastante cedo, com todos no carro as 06:30 horas para nosso primeiro game drive (busca de animais selvagens de carro).
Vimos diversos animais, como elefantes e girafas, mas o ponto alto do dia ainda estava por vir.
Avistamos a cabeça de uma chita descansando embaixo de uma pequena árvore. A principio não parecia que ela sairia tão cedo da pequena sombra e logo ficamos entediados com o marasmo. Porém nosso motorista disse para termos paciência e aguardamos mais um pouco. Parecia que estava programado o show...
Logo, um infeliz dik-dik (pequeno antílope) passou desavisado entre nosso carro e a chita. Esta logo se empinou e para nossa enorme surpresa outras 2 chitas saíram dos arbustos. Eram os últimos minutos do pequeno antílope... As 3 chitas saltaram velozmente e encurralaram o pequeno dik-dik contra nosso carro. Involuntariamente fomos cúmplices de um covarde assassinato no mundo animal. Tudo ocorreu a poucos metros de nosso carro. Cena digna de programas do National Geographic.
Retornamos ao acampamento por volta das 10 horas para nossa café da manha comemorativo.

Após a caçada, a líder das chitas leva o dik-dik para saboreá-lo a sombra.

O grupo das 3 chitas em direção a uma sombra para compartilhar a caça.



VILA SAMBURO

As 11 horas fomos visitar a vila da tribo Samburo. Um representante da tribo que falava inglês veio nos receber para nos guiar e explicar a constituição da sociedade deles. Para a visita, tivemos que pagar 1000 shilling quenianos (cerca de 12 dólares/ por pessoa), com direito então a tirar quantas fotos quiséssemos, assistir a cantos e danças, a visitar as casas, etc.

Grupo que cantou e dançou para nos.


Como na Índia, as paredes das casas são feitas preferencialmente com terra e coco de vaca. No entanto, como o rebanho estava mais escasso, estavam usando restos de lonas, plásticos e latas para terminar as casas.
Os Samburos são poligamicos e para cada esposa deve ser construída uma casa. As casas ficam dentro de um grande cercado de galhos com espinhos para protege-las dos animais selvagens. Durante a noite, seus rebanhos de vacas e cabras são recolhidos para dentro das imediações da vila cercada.
Mostraram-nos como fazer fogo friccionando 2 tipos de madeira (uma mole e outra dura) e cobrindo posteriormente a região com coco seco de burro.

Demonstração de como fazer fogo.


Visitamos o suposto "colégio", um grupo de crianças sentadas embaixo de uma árvore, um quadro negro com o alfabeto escrito há bastante tempo e uma moça que dizia ser a professora. Como que num show, começaram a soletrar todo o alfabeto, a contar até 20, e a dizer "bom dia, vocês são bem vindos." Tudo em inglês, mas descaradamente decorado para impressionar. Na sequência, nosso guia começou a explicar que a comunidade queria construir uma escola, mas que o governo não mandava recursos alegando que os samburos eram nomades (originalmente são, mas afirmaram que não desejavam mais ser) e que precisavam de doações. Maior constrangimento e pressão por mais dinheiro.

Crianças no "colégio".


O fim do tour foi passar por um corredor formado por mulheres oferecendo seus artesanatos. "Fugi" logo dali, pois todas pediam para que comprássemos algo, oferecendo insistentemente cada objeto que eu tivesse olhado por um relance.

O corredor para venda de artesanatos.


No balanço das coisas, a visita foi bastante interessante, mas a insistência pela compra de artesanatos é algo que me perseguiu por diversos lugares da África. Apesar de ter que pagar para fazer a visita (algo que me pareceu bastante justo, já que a vila é "invadida" diariamente por curiosos endinheirados e os samburos só obtêm dinheiro através destas visitas ou da venda de cabras), é uma das poucas oportunidades de conhecer um estilo de vida tão diferente.
Voltamos ao acampamento andando pela reserva, mas acompanhados de 2 samburos armados com suas lanças.
O calor ao meio dia era infernal e tomei facilmente um banho de chuveiro frio.
Depois do almoço (peixe frito, batatas, espinafre e melancia) sentei a beira do rio, largo, mas totalmente seco que separava nosso acampamento da vila samburo. Pude observar mulheres e crianças cavando no leito do rio a procura de água para se banharem, para beber e para levar para a vila. Pequenos buracos eram abertos com as mãos para terem acesso a água doce.
Já do lado de cá do rio, para nós, a água para banho e higiene era provida por uma bomba com motor e a água para beber tínhamos trazido da cidade a preços que podíamos facilmente pagar. Poucos metros separavam situações tão distintas...

Quando o sol se pôs:
Para nosso jantar, nosso cozinheiro preparou chapati (um pão indiano), folhas verdes cozidas e algo parecido com um frango com molho. Sobremesa: salada de frutas. Para acompanhar, abrimos um vinho sul africano que trouxemos juntos com as compras que fizemos para a expedição.


MULHERES

Por toda a África Oriental ou África do leste (East Africa), pude perceber que é tradição as mulheres fazerem o trabalho pesado, como carregar pesos (água, lenha e mantimentos) e trabalhar nas plantações. Aos homens cabe cuidar dos animais (pastorear) e sentar a sombra para conversar com os amigos.
O machismo é bastante presente. Ao negociar um preço de uma corrida com um taxista, sabíamos o preço que deveríamos pagar por informações dadas pela atendente de um de nossos hotéis em Uganda. Ao tentarmos argumentar com a informação que obtivéramos, o taxista não se intimidou a afirmar: "Mulheres não entendem de nada, muito menos de preços ou de corridas de táxi."

Em Ruanda.












 
Em Uganda. O pais das bananas...


























No Quênia - vila Masai Mara.
 PS: Devido ao teclado local (africano), possivelmente existirão problemas de acentuação nos textos. As palavras aqui acentuadas foram feitas com recursos de auto-correção do blog.

Safari ao Lago Turkana (norte do Quênia) - dia 1 de 8 (11/02/2011)

Fechado todo o pacote e com um briefing geral do que seria a nossa expedição, percebi que faríamos algo único no Quênia e possivelmente o ponto alto da viagem a África.
Nosso grupo foi composto por 7 turistas: uma suíça, uma holandesa, uma alemã (posteriormente conhecida por Barbie - razão que explicarei mais tarde), uma norueguesa, todas na faixa de 26 a 35 anos, um canadense na faixa dos 65 anos, Rafael e eu (na faixa dos 22 anos ;-)). Tanto as nacionalidades se distinguiam, quanto as profissões. Logo de cara nos demos muito bem com Coleman, o canadense.
Nossa equipe de apoio (staff) constituiu-se do motorista, Stephen, e o cozinheiro, Gabriel (ou Momo).

CANA DE ACUCAR

Pegamos a estrada na direção norte e logo pudemos observar a pobreza das periferias de Nairobi. Camel^os vendendo roupa usada, sapatos e acessórios, "bancas" feitas de lata vendendo refrigerantes. Nos trechos que o transito fluía com mais lentidão havia muitos carrinhos de mão repletos de cana de açúcar com rapazes simples descascando as varetas e vendendo em sacos plásticos os pequenos cubos de cana que picavam com seus facões. A habilidade deles era tanta que apenas os facões tocavam a parte interna da cana. Picavam com tanta habilidade no ar, que os cubos voavam diretamente para as embalagens plásticas.
Eu queria uma porção daquelas para ir me deliciando no caminho e perguntei ao motorista quanto custava cada saquinho. Ele imediatamente acenou a um rapaz, que passou a correr ao lado do carro com seus saquinhos de cana enquanto eu procurava umas moedas para fazer a compra de 2 porções. Custo: 10 shilings quenianos (15 centavos de dólares) cada.
Ofereci a todos, para espanto dos gringos que nunca tinham experimentado nada igual e acharam muito difícil de mastigar. A compra virou assunto com nosso staff, que ficaram surpresos da minha familiaridade com a cana de açúcar. Então expliquei a eles que isso existia no Brasil, e que inclusive fazíamos caldo da cana.
Descobri ao longo da viagem pela África que aparelhos de caldo de cana poderiam ser um bom negocio, pois a tecnologia ainda não chegou por aqui...


Camel^os nas periferias de Nairobi


Homem transportando agua na bicicleta. Imagem recorrente ao longo da viagem.


PELA ESTRADA AFORA...
Prosseguindo pela estrada, a paisagem gradativamente começou a mudar. Passamos então a percorrer regiões mais pobres, mas também mais belas, com o monte Kenya ao fundo do cenário.


Monte Kenya ao fundo


Crianças a caminho da escola acenando para nosso carro.


PRIMEIRO ACAMPAMENTO

Nosso primeiro acampamento foi na reserva de Samburo. Logo na chegada deste parque avistamos um leopardo deitado em uma árvore distante. Como estava perto de anoitecer, nos dirigimos ao camping permanente da Gametrackers. Neste camping havia chuveiro (agua fria) e banheiro daqueles de buraco, mas com um vaso para dar um aspecto de civilização. As barracas ficam permanentemente armadas, com um telhado de palha por cima para proteger do calor e internamente com 2 camas feitas de estreitas tábuas e um fino colchão. Instalações bem feitas para um camping. Na parte central, havia uma choupana maior onde eram preparadas e servidas as refeições. Como nosso acampamento era no meio da reserva, a advertência quanto a idas ao banheiro (que era afastado) era clara: era preciso "escolta" de uma das pessoas do staff do camping. Elefantes rondavam as imediações! Para garantir uma noite tranquila, resolvi beber pouco liquido antes de dormir...

Nosso acampamento na reserva Samburo.

Nossa barraca! Lar doce lar.

Nosso lar: 2 camas, uma mesinha e muita agua estocada.



Cozinha e refeitório.


 PS: Devido ao teclado local (africano), possivelmente existirão problemas de acentuação nos textos. As palavras aqui acentuadas foram feitas com recursos de auto-correção do blog.

7 de março de 2011

Safari de verdade

Safari quer dizer "jornada" em swahili. E com este sentido mais fiel empreitamos um safari para o norte do Quênia, uma das regiões mais remotas e também perigosas do pais.
Alcançar o lago Turkana foi o objetivo principal (local das gravações do filme: "O Jardineiro Fiel"), mas passar pelas vilas e desertos pelo caminho foi maravilhoso. Para esta jornada, contratamos uma das únicas empresas especializada na rota, recomendada por livros de viagens e inclusive por agências concorrentes: a GameTrackers.

O pacote incluía:
  • 8 dias
  • 3 refeições por dia
  • Transporte
  • Barracas
  • Preço: em torno de 1000 dólares com gorjetas para o motorista e cozinheiro.

Neste orçamento, estava incluso também um seguro obrigatório que só ficamos sabendo que teríamos que pagar no dia da partida. Foram 15 dólares para garantir um resgate em qualquer lugar da rota pelos Flying Doctors ("Médicos Voadores") caso necessário. Esperar por resgate terrestre poderia representar a morte certa, devido as condições das estradas/ trilhas. Humm...
Também ficamos sabendo "na hora" que a partir do segundo dia teríamos 2 seguranças/ militares armados nos acompanhando durante todo o trajeto para garantir nossa integridade física pela região... - é bom sempre acreditar que tem alguém consciente do que está fazendo conosco...
Além disso, fomos advertidos que bebidas não seriam fornecidas (inclusive água mineral) e não seriam de fácil acesso nas vilas. Portanto, muitos botijões de água foram carregados no carro de transporte por cada um dos 7 turistas deste grupo.

Nosso carro para a jornada ao lago Turkana.

O relato deste safari farei nos próximos dias...

4 de março de 2011

Qual é a sua tribo?

Nairobi tem fama de cidade violenta, pode até ser, mas durante o dia, tomando os cuidados de qualquer cidade grande, não vi problemas em me deslocar portando relógio e bolsa. Quando perguntei a uma local se poderia caminhar com tranquilidade no centro, ela me disse como que falando algo óbvio: "Claro, ainda é dia!".
Mesmo assim para não arriscar, nem sempre ficava apontando minha máquina fotográfica para tudo quanto é lado, especialmente para não ser importunada.
Existem por todos os cantos "caça branquelos para safaris": caras que ficam a procura de um turista para leva-los a sua agência de safaris para ganhar comissão. Isso é um saco, mas já temos a resposta para dar as perguntas de sempre.

- Hellow my friend! How are you?
- Fine. - nada de respostas muito longas.
- Where are you from?
- Brazil.
- Oh! Brazil! Football! Ronaldo, Kaka, Lucio,.... - E ai o cara começa a listar a lista de jogadores brasileiros.
- Yes, yes.
- I know a good safari for you my friend.
- Oh, I am sorry. We are living tomorow....

E ai o cara vai embora.
Outra mais curta é dizer de cara que não fala inglês:

- No english, no english.

Pronto! O cidadão sai de perto na hora!.
Não me interpretem mal a hostilidade, mas depois de ser "atacada" dezenas de vezes, você perde a paciência.

Torre com vista panoramica da cidade. Segundo prédio mais alto da África (informacao do guia local).

Vista da capital Nairóbi do alto da torre.

Em um parque na cidade.


DIVERGÊNCIAS TRIBAIS

O Quênia tem ao todo 42 tribos.
Cada cidadão sabe a sua. O orgulho que sente por ela, eh proporcional ao preconceito e rivalidade que nutre pelas demais.

Cada cidadão aqui sabe sua tribo e tem um orgulho enorme pela sua e um preconceito tão grande quanto pelas demais tribos. Os Kikuios são maioria e também governam o pais para desespero das demais tribos. Um dos taxistas que pegamos (da tribo Kampa), nos "explicou" que se um Kikuio quer algo seu e você não dah, até o final do dia, ele ira te roubar para ter. (!) Nosso guia no parque Masai Mara (da tribo Luo) vendo uma Kikuio acompanhando um turista branco, declarou: "-As Kikuios gostam de Mzungo - (nome swahili para designar homem branco) - Elas gostam porque eles tem dinheiro."
Outro cidadão, vendendo jornal, do nada chegou e se apresentou como sendo da tribo Luo, e para destacar sua importância étnica, complementou que era a tribo do pai de Obama.

Falando nisso, Obama por aqui virou pop-star. Você encontra fotos dele por todos os lados, calendários e livros para vender e comerciais de celular com a foto da esposa dele.

Mas voltando a falar das tribos, percebemos fortemente a falta de um nacionalismo queniano devido as rivalidades tribais. Em 2007, depois da re-eleiçao do presidente da tribo Kikuio (Kibaki), houve violencia generalizada, principalmente entre Kikuios e Luos. Varias pessoas foram mortas e esquartejadas a facão. Um guia que nos acompanhava na visita a torre mais alta da cidade teve seus pais mortos neste genocídio, como nos explicou. Ele relatou que para identificar se as partes coletadas dos corpos eram de sua mãe ou de seu pai, fez a comparação dos pedaços pelo tom da pele, pois sua mãe era mais clara...
As pessoas contam suas historias como se estivessem falando de um filme. Muitas vezes penso que não estou compreendendo o inglês destas pessoas pela enorme surpresa que me causam seus relatos.

CAFÉ

O Quenia só perde para o Brasil na exportação de café. No entanto, infelizmente é bastante difícil encontrar um bom cafe por aqui. Quando servido no café da manha, normalmente é Nescafé (instantâneo). A tradição nacional é o chá preto e muitas vezes com leite. (argh - herança dos ingleses)

INFLUENCIA INGLESA

Falando em herança inglesa, esta exerce forte influência, apesar da independência ter acontecido há algumas décadas. A paixão nacional é acompanhar os jogos de futebol inglês em bares com muita cerveja.
O transito é "mão inglesa", o inglês é a língua oficial (apesar das pessoas falarem melhor o swahili), os jornais e programas de TV são na maioria em inglês...
O mais engraçado foi ver na TV, cenas do parlamento, exatamente igual ao ingles, com o juiz vestindo aquela peruca branca inglesa e usando toga. Coisa mais estranha!

TRANSPORTE URBANO

Quase todo o transporte da população depende dos matatus: vans sucateadas trazidas do primeiro mundo que levam 12 passageiros (teoricamente). Cada matatu tem seu motorista e "cobrador", este ultimo com funções extras de propaganda e logística, arregimentando clientes para o carro e organizando-os nos assentos: 3 lugares facilmente viram 5, é só empurrar mais um pouquinho.
Quando fomos no museu da Karen Blixen (filme: "Entre dois amores"/ Out of Africa) utilizamos este transporte. Ao invés de pagarmos cerca de 3000 shilings (mais de 30 dólares) pelo táxi, o matatu nos custou KSH 200 ida e volta (KSH 50 por pessoa por trecho).
Achei bem tranquilo o uso deste transporte: o preço é tabelado por distancia (não tenho que negociar com o taxista) e as pessoas olhavam com satisfação e respeito para nos (por verem que mesmo sendo turistas estavamos usando o transporte popular - algo bastante raro).

26 de fevereiro de 2011

Dar Es Salam - nome complicado para uma cidade tranquila na Africa

Chegada na Tanzania dia 06 de fevereiro de 2011.

PS: perdoem a falta de acentos, mas na África estah complicado achar teclados adequados a nossa língua portuguesa...

Meu primeiro contato com o continente africano foi através de alguns livros interessantes que recomendarei mais tarde. Cito neste post especialmente um que me motivou a escolher a África como o destino de minha atual viagem: "Peh na Africa" de Fabio Zanini. A narrativa me deixou interessa pela África do Leste ou East África composta pelos países: Tanzânia, Quenia, Uganda, Ruanda e Burundi. Este ultimo descartei do roteiro por não ter a segurança recomendada nem atracoes imperdiveis...

Tive apenas 2 dias para sondar a cidade Dar Es Salam (que significa CASA DA PAZ em árabe) na Tanzania e a achei bastante agradável: a beira mar, com pessoas simpáticas e que falam um razoável inglês (muito melhor que o da Índia, mas vim a descobrir mais tarde que no Quenia fala-se ainda melhor). A cidade eh razoavelmente limpa, mas o transito eh opressor. Rafael e eu visitamos a embaixada recem inaugurada há apenas 2 meses. Ficava a poucos quarteirões de nosso hotel. O embaixador e outro diplomata nos receberam para uma conversa rápida sobre as impressões gerais do pais e do continente africano. Atualmente o escritório fica localizado em um prédio novo de frente para o mar. Nada mal!


Embaixada do Brasil na Tanzania.

Visitamos um museu meio decadente, com objetos e fotos interessantes quase que abandonados. Éramos os únicos turistas no local. Alem dos artefatos tribais e de objetos do período colonial, um exemplar histórico não poderia deixar de ser destacado no museu: o primeiro ATM da Tanzânia!

O primeiro ATM da Tanzania! Uma reliquia de 1997.

Uma das partes mais bem cuidadas do museu.


Fomos a um mercado popular que não faz parte do roteiro turístico de Dar Es Salam. Muita sujeira e pessoas nos olhando com cara de poucos amigos. Era tipo um mercado publico aberto, vendendo desde frutas e legumes nas estradas de terra a roupas e quinquilharias de toda a espécie. Consegui bater umas poucas fotos do local, pois não me senti muito a vontade, já que o local não eh para turistas branquelos.



Ao final do dia merecíamos uma cerveja a beira do oceano. Este local abaixo eh tipo um shopping a beira mar, com vários restaurantes agradáveis.
Na noite anterior, jantamos em um restaurante Tailandês excelente! As opcoes gastronomicas agradaram!



Infelizmente o tempo em Dar Es Salam foi curto para ter mais impressões, pois dia 11 de fevereiro seria inicio de nossa expedição ao lago Turkana e tínhamos que ir a Nairobi (capital do Quenia).

31 de janeiro de 2011

Agora é a hora




Irã: por que não? (parte 2 - a decisão)

O título desta postagem é para referenciar uma outra que escrevi de mesmo nome em junho de 2010 (http://www.coordenadaxy.com/2010/06/ira-por-que-nao.html). Naquela ocasião estava tomando a decisão de um turismo pela região da Pérsia, algo com duração de apenas 2 semanas.

Passada toda a experiência no local e a certeza de que o Irã é um país muito menos repressor do que apresentam na TV, veio a tão esperada decisão: final de 2010 era tempo de tomarmos a decisão de onde moraríamos nos próximos 2 anos (não mais semanas). O Rafael tinha em mãos uma lista de países para ir trabalhar. Destes, apenas postos dos mais incomuns na África e Oriente Médio. Neste contexto, entre idas e vindas, e crises existenciais ("ser ou não ser desempregada?"), decidimos por um revivel* de maior duração no Irã. Uma decisão nada fácil para mim, já que ainda não tenho muitas idéias de como será minha ocupação por lá. Para o Rafael já vai ser bem fácil: cinco dias por semana ele estará na embaixada resolvendo quase tudo em português e em inglês. Eu vou ter que recriar minha vida em Farsi ou em inglês com as raras pessoas que falam outra língua (igual no Brasil, normalmente apenas as pessoas com nível superior falam inglês).

Mas este tipo de desafio me dá a sensação das corridas de aventura: novidades, coisas inesperadas, desafio e superação. Falando em esportes, tive que vender minha linda mountain bike, já que no Irã mulheres não pedalam bicicletas. Ainda não sei se há uma lei proibindo ou se é um costume, mas fato é que não pedalam! E eu não ia atravessar o Atlântico com ela para deixá-la encostada. Lá se vai mais um apego material...

Praticando o desapego: vendi minha bike companheira de aventuras... snif, snif

Saí do emprego que era feliz, estou vendendo meu carro e alugando o apartamento. A palavra de ordem é "desapego".

Muitas despedidas: dos amigos, da família e da cidade que visitarei apenas como turista a partir de agora. Haja coração...

Comprei um enxoval novo de cama, mesa e banho (informações locais avisaram-se que lá dificilmente encontram-se artigos com algodão) e fiz um  "rancho" (supermercado) gigantesco com produtos brasileiros para despachar no container (ver lista no final).
Agora está tudo pronto (assim espero). Amanhã chega a empresa de mudança e tudo o que eu tenho será transportado num caixote de 18 m3 pelo oceano. A previsão é que chegará dentro de uns 3 meses devido às sanções (infelizmente não rola um passaporte diplomático para a mudança).


Entre os produtos, cito aqui uma lista para os amigos que também partirão para o exterior ou só por curiosidade dos que ficam:
  • guaraná antártica;
  • leite condensado;
  • creme de leite;
  • leite de coco;
  • coco ralado;
  • geléia de banana;
  • paçoca e pé de moleque;
  • maisena;
  • polvilho (doce e azedo);
  • chocolate granulado;
  • café embalado a vácuo;
  • feijão preto;
  • farinha de mandioca;
  • erva mate (coisa do Rafael);
  • sabão de coco;
  • cremes e xampu da marca preferida;
  • papel higiênico! (não que não tenha, mas já nos advertiram que é bem caro: ~ 2 dólares o rolo. O costume local não usa.)

*revivel é uma expressão em inglês que significa: reapresentação; renascimento; revivificação.

9 de novembro de 2010

Maranhão

Por favor não fiquem em casa em um feriadão! Saiam do sofá! Desliguem a TV. Simplesmente faça algo diferente. Vá a um bairro diferente. A um restaurante diferente. Incrivelmente você verá o tempo se expandir!

Eu fui um pouquinho mais longe... Peguei o último feriadão de finados e fui com alguns amigos do Rafael para o Maranhão. Saí aqui do Sul do Brasil, peguei inúmeras conexões que duraram quase o tempo de viagem para a Europa, mas valeu a pena!



No centro histórico de São Luis com a turma que foi na viagem. Da esquerda para a direita: Juliana, Rafael, Benedito, Mariana, Bianca, Leonardo, Tatiana, Carol (eu). Abaixo: Márcio e Lucas.


Centro Histórico: antiga casa para venda de escravos (detalhe para as "janelas").


Uma das únicas lagoas com água nesta época do ano (novembro).


Lençóis no pôr do sol.


Em 4 dias você pode aproveitar MUITO do Maranhão.

Fiquei encantada com o centro histórico de São Luís! Tão grande e ainda preservado. Bom, preservado mesmo não dá para dizer que estavam todas as casas, mas pelo tamanho do centro histórico é realmente impressionante o estado de conservação. Foi possível ver algumas construções em processo de restauração. Que bom! Afinal, o centro histórico, com suas centenas de casas em arquitetura portuguesa (muitas revestidas com azulejos), foi incluído na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Eu nunca tinha visto um centro histórico tão grande. Ganha de longe de Salvador (BA).

De São Luís pode-se ir até Barreirinhas, cidade base para acesso aos Lençóis Maranhenses. São cerca de 3 horas e meia até o pequeno vilarejo. Aqui os ecologistas fazem a festa: tem mangue, caatinga, rios, mar, praia e é claro: os famosos lençóis maranhenses! Nesta região a natureza ainda está praticamente intacta.

No farol de Mandacaru
Fizemos vários passeios:

Bóia-cross no rio Formiga: relaxando sobre uma bóia de pneu, em um rio de águas limpinhas que corta uma linda floresta densa de caatinga e muitas palmeiras de buritis. A correnteza é relativamente forte, mas sem pedras ou quedas. Delícia! Parecia um parque aquático, só que com tudo natural.

Passeio de lancha pelo rio Preguiça: visitando as comunidades de Mandacaru (onde tem um farol bacana para ver uma bela vista do topo), Atins e Caburé. No passeio pelo rio pode-se apreciar os manguezais nas margens, dunas que "acabam" no rio e muitas aves. Além disso, há muitos restaurantes rústicos nas margens.

Caminhada pelos lençóis e banho nas lagoas: para chegar até os lençóis é preciso pegar um carro com tração nas 4 rodas e preparar o corpo para o sacolejar de mais de 1 hora. Além disso, como a floresta cresce gradativamente para dentro da estrada, em alguns pontos era preciso se esquivar para não levar um galho no rosto ou no braço. Como dizia o Leonardo: "é melhor que a Disney".

O trajeto percorre "estradas" de areia por regiões remotas onde, inacreditavelmente, é possível constatar que muitas famílias continuam vivendo no meio da vegetação e das dunas, muitas delas ainda sem acesso à luz elétrica. Contou-nos o guia que em outro pequeno povoado a luz chegou faltando apenas 1 mês para as eleições. Não foi surpresa a unanimidade nas urnas naquela região...

Antes de iniciar a caminhada pelas dunas, fizemos a "encomenda" do almoço no restaurante da Luzia: uma pequena casa no meio do nada que serve um delicioso almoço com camarão grelhado (acompanha arroz, feijão, farofa e salada de tomate). No retorno, depois de subir e descer MUITAS dunas, a comida parecia simplesmente a coisa mais deliciosa que se poderia desejar. 


Muita energia nas dunas! Felicidade na paisagem azul e branca.

 Passeio de avião mono-motor: 25 minutos apreciando a imensidão branca, verde, e azul! O preço não é dos mais baratos (R$ 180 por pessoa), mas vale muito a pena. Destaque para o trajeto que o piloto faz rasante pertinho do mar.


No sobrevoo.
Os 4 que encararam o voo: Lucas, Rafael, eu e Márcio.

Dicas

Não deixe de levar:
  • óculos de sol
  • chapéu
  • chinelo (impossível usar tênis nas dunas fofas)
  • protetor solar
  • Camiseta dry-fit (preferencialmente de manga comprida)

Melhor época:

Logo após o período de chuvas que ocorre de janeiro a junho. Mas eu fui em novembro, e foi maravilhoso, apesar das lagoas estarem quase todas secas.


Algumas outras FOTOS da viagem:


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